40 – Quarentena

Projeto de escrita financiado pelo FAC Digital RS e Feevale. Quarenta crônicas sobre cidades, escritas durante o período de pandemia imposto pelo COVID-19. #feevale #sedac #feevaletechpark

Disponível para baixar gratuitamente em:

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Los Vilos – Chile

Dormir, o sono como protesto e possibilidade.

2018-06-17 12.10.58

Estar em constante movimento parece ser a ordem do dia de um tempo em que a velocidade é um imperativo,  movimento pode ser entendido aqui como  consumo. Precisamos estar sempre a consumir, seja dados da internet, energia elétrica, roupas, gás, comida, água, gasolina, etc. É demandado que se consuma muito e cada vez com mais velocidade. Estar satisfeito seja com o que for é considerado desleixo, preguiça, talvez seja uma espécie de pecado contemporâneo.  Bom cidadão é o que consome, pois acredita-se ironicamente que o consumo pelo consumo nos trará o mítico desenvolvimento pois trará fábricas, empregos, aumentará o PIB e todos seremos eternamente felizes, mesmo que ninguém goste de morar perto de uma área industrial ou de um lixão, desdobramentos consequentes  de tal pensamento.  Neste cenário o ato de dormir ganha outros contornos e significados. Ganha are espécie de protesto, beira a desobediência civil e se apresenta como uma possibilidade de reconexão com o que somos e com o entorno que nos forma. 

Ao dormir não estamos on line. Não há demandas por respostas no whatsapp, não estamos a ser bombardeados por propagandas e notícias que mais querem chocar do que informar, não estamos  a fazer uploads  de  fotos e palavras que muitas vezes são somente moeda de troca para likes. Dados sejam eles quais fora para serem carregados na internet ocupam espaço físico. Assim como um cartão de memória tem certa capacidade de armazenagem as centrais da dita nuvem nada tem de etéreo. A internet consome energia elétrica, toneladas de cabos, e demanda estrutura física. Estar off-line é poupar recursos.   Em uma lógica em que plataformas como facebook  e instagram são desenhadas para que as pessoas fiquem o maior tempo possível on-line, e gerem informações para que grandes fortunas se mantenham como as de Mark Zuckerberg do facebook /Instagram/Whatsapp e de Jeff Bezos da Amazon, perpetuando uma situação de assimetria global em que a polarização extrema de tudo parece cada vez mais acentuada, seja na política seja nas condições de vida. Ao dormir estamos fora ao menos  por algumas horas desta rede. 

 

Não estamos a consumir propaganda, não estamos a usar nossos cartões de crédito, não estamos a comer. Mesmo que exista propagandas de colchões e travesseiros, aliás no Brasil o Ministro da Ciência do governo Bolsonaro,  já foi garoto propaganda do travesseiro da Nasa, mesmo com tudo isso dormir é uma espécie de espaço blindado ao consumismo. Dormir preserva recursos naturais. Em um mundo em que vê sua demanda por papel, metais, petróleo, etc subir ano a ano, no qual as promessas de que a digitalização traria economia de energia e recursos soam agora como falaciosas e fantasiosas. Dormir é um ato que é sustentável e toca questões pertinentes e urgentes como moradia e mobilidade urbana. Dormir demanda silêncio mas como fazer isto em uma sociedade que idolatra automóveis? Como ter uma quarto termicamente confortável e escuro, dois determinantes para qualidade do sono, quando a indústria da construção civil busca o maior lucro possível com a redução da qualidade das moradias? Como ter tempo para dormir em cidades que se orgulham de nunca parar, onde sempre há alguma luz ligada?  Aliás, sustentabilidade palavra gasta, talvez nunca entendida verdadeiramente virou algo que se pode encontrar escritor até em rótulos da Coca.Cola. É quase um jargão para encher páginas de ensaios acadêmicos. Virou um tópico semanal  de jornal   como as partidas do campeonato nacional de futebol. A derrubada  contínua e criminosa da Amazônia ou o horóscopo do dia ganham a mesma relevância. 

 

Como falar de sustentabilidade seriamente sem falar de corpo? E quer coisa mais corporal do que o ato de estar cansado e com sono? Por mais sofisticados que sejam nossas vidas, por maior que seja o número de apetrechos tecnológicos que tocamos do início da manhã até  o fim do dia, celular, computador, controle remoto da tv, máquina de lavar roupa, etc por mais que tudo a nossa volta seja uma espécie de barreira que parece ser desenhada para um conforto eterno, para que esquecemos que somos corpo. Todos precisam dormir. E isto nos conecta a algo que nosso mundo dito civilizado se esforça diariamente para nos fazer esquecer, como animais, somos corpo e corpo é permeável e moldado em uma constante interação ambiental. Sentir sono, e dormir nos faz de algum modo lembrar nossa conexão com a Terra, com os outros, com nossos antepassados. Não é de se espantar que dormir mal ou pouco seja algo característico de nosso tempo. Dormir se vincula a saúde mas é muito raro ouvir este vínculo, ao contrário de outros aspectos vinculados a qualidade de vida, como alimentação, exercícios, etc o dormir é mais difícil de ser capturado pela lógica de mercado. Em uma realidade que  se encontra na sexta extinção em massa da história do planeta, em que florestas tropicais milenares são derrubadas para plantar palma e assim podermos ter sorvete e sabonete, desrespeitar e desqualificar a importância do sono é algo esperado. Desrespeitar o sono violentar um processo vital, é uma das múltiplas facetas de desrespeito a vida. 

 

Trabalhei por quatro anos e meio no turno noturno, em uma empresa de logística de transportes. Dezenas de pessoas desta empresa trabalhavam e um turno que se iniciava às duas da manhã virava a madrugada até as dez e trinta da manhã do dia seguinte. Era Apenas um dos turnos, de uma linha de produção e entrega que operava 24 horas por dia seis dias por semana. Todo este esforço para que pessoas pudessem ter tênis chineses no menor tempo possível. A ONU estima que ⅓ da população trabalhadora mundial trabalhe á noite. E, mesmo que, no Brasil, onde moro, o turno noturno seja melhor remunerado, o dinheiro não garante sono. Estar sonolento por toda a semana durante o dia, já que dormir durante o dia não se equivalem a qualidade do sono noturno, foi minha realidade por todo este tempo. Há de se resgatar muitas coisas. Há de se protestar. Dormir bem, reivindicar isto pode ser um modo de começar. 

Bicicleta e latas de alumínio, algumas considerações.

Alumínio, borracha, aço, ferro, nylon, plástico, etc. Uma bicicleta pode ser vista de muitos modos e por suscitar paixão, magia, boas lembranças e horizontes de possibilidades dificilmente é vista deste ângulo, como uma coletânea de materiais, hoje oriundos das mais diversas partes do mundo. Pneus podem ser da Indonésia, cabos do Brasil, câmbio do Japão e selim da China. Uma bicicleta toca muitos lugares, agrega muitos materiais. Em tempos de mudanças climáticas se apresenta como uma importante ferramenta de mobilidade  e faz parte da resposta a dependência de combustíveis fósseis, mas ter em mente que consome recursos é importante para qualificar a discussão sobre sustentabilidade.  

 

  Guiado por estas reflexões em 2019, Lúcio K. Canabarro, um ciclista da cidade de Pelotas, sul do Brasil, que para comemorar  de modo inusitado os dez anos de uso da mesma bicicleta empregada nos deslocamentos diários , coletou o equivalente ao  peso da bicicleta em latas de alumínio que encontrava pelas ruas em sua jornadas de ida e volta para o trabalho. A coleta marcada por um ritmo de uma ou duas latas por jornada, iniciou-se em março e foi concluída em dezembro,  totalizou 1261 latas, isto é, 15,1 Kg. Novecentas gramas a mais do que o peso da bicicleta. Todo o material coletado foi ao longo do processo sendo entregue a catadores locais e centros de coleta de material reciclado. Embora a ideia de compensação ambiental seja algo questionável, pois abre margem para negociatas, afinal  créditos de carbono na bolsa de valores não  compensam o clima, ou a extinção de espécies, foi uma tentativa de retribuir o material empregado no quadro e em muitas peças da bicicleta. 

 

  O Brasil é um dos maiores exportadores do mundo de bauxita, matéria prima do alumínio, com minas no Pará. Nossos aros e quadros podem estar a custar nacos da floresta Amazônica e pedaços da selva tropical da Indonésia. A bicicleta tem uma quantidade de material empregada muito inferior a um carro ou moto, no entanto em um cenário de crise cabe a nós ciclistas refletir e cobrar das empresas alternativas como logísticas reversas, embalagens biodegradáveis, etc. Um pneu de bicicleta usa menos material do que um pneu de carro mas ainda é um pneu. O óleo do freio hidráulico tem pouco volume mas ainda é óleo com potencial para poluir água.  Onde andará hoje o quadro ou o jogo de pneus de nossa primeira bicicleta na infância? Este é o ponto. 

 

A complexidade da crise ambiental atual terá com certeza a bicicleta como uma das soluções, mas a aura de sustentável não deve afastar a consciência de que uma bicicleta envolve materiais e têm alta complexidade industrial. Ser responsável para com a manutenção para o aumento da vida útil das peças, questionar-se se realmente necessitamos trocar de bicicleta a cada ano, ou perguntar qual foi o processo de produção ou o destino de materiais usados, sejam eles partes da bicicleta, do vestuário e apetrechos da prática de ciclismo, no seu termo amplo da palavra, qualificará e aprofundará ainda mais o caráter sustentável   já existente mas ainda não totalmente dimensionado. Uma atitude que como as  1261 latas coletadas pode ser singela,  mas que como ciclistas, como cidadãos, como consumidores, deve ser uma causa abraçada por todos envolvidos dia a dia com esta fascinante invenção chamada bicicleta.  

 

Texto publicado na revista Bicicleta em 9 de agosto de 2020.

revista bicicleta

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Carta aberta ao futuro morador

(Carta aberta deixada na caixa do correio, destinada ao futuro morador.)

Pelotas, sul do mundo, início de fevereiro de 2020.

Eu não conheço você, e isto cria um certo problema para escolher um pronome de tratamento ou saudação inicial para esta carta, a escrevo como um gesto duplo, é uma mensagem de boas vindas e também uma forma singela de agradecer o lugar que vivi por mais de dez anos. Gostaria de lhe apresentar este lugar pessoalmente, por muitas razoes isto é impraticável, resta então a escrita. Quero falar do apartamento que ocupa agora, da rua e da cidade.
O apartamento que lhe abriga agora foi visitado por 86 pessoas durante o tempo que ai vivi. Este número não é preciso, possivelmente subestimado. Entre estas pessoas havia gente de 5 países (Argentina, Uruguay, Colômbia, Alemanha e Moçambique) e mais de 20 cidades brasileiras. Isto me faz pensar em como um lugar de menos de 40 metros quadrados pode ser um ponto de encontro de lugares, linguagens, culturas, etc. Um lugar por menor que seja pode influenciar e tocar a vida de muita gente. Estas paredes já escutaram muitas histórias e este teto já foi abrigo de adolescentes mochileiros. Um lugar para dormir e um banho é de grande ajuda, principalmente quando se viaja com poucos recursos. Gosto de pensar que este lugar serviu de ponto de apoio para pessoas que resolveram dedicar um tempo de suas vidas a viajar pelo continente, ou de estudantes que precisavam de um lugar para ficar durante algum congresso da universidade. Este apartamento é um bom lugar para ler, tem janelas amplas e o prédio é calmo. Ele já foi mais silencioso, mas depois que asfaltaram a Avenida Barroso e com o número cada vez maior de carros, parte deste sossego foi sacrificado no altar do mitico progresso. Eu acredito que a qualidade interna do ar deve ter ficado pior com este aumento de carros, mas a prefeitura, até o momento, convenientemente, não tem dados disto no relatório ambiental da Secretaria de Meio Ambiente. Caso tenha recursos troque as janelas, instale outras de vidro duplo. Não ajuda na qualidade do ar mas garante mais silencio e isto influenciará seu sono e sua saúde geral. Dos sons que gostava de ouvir ai lembro de alguns: o sino da catedral aos domingos, a buzina do trem (possível de se unir somente com condições específicas de vento e umidade do ar), os morcegos no inicio da noite, o batuque da vizinhança, a torcida do Bento Fretas em dia de jogo e os ensaios de carnaval e fevereiro. Estas coisas fazem parte da paisagem sonora, deste apartamento. Algo tão importante e definidor de um lugar quanto paredes, portas,etc. A água da torneira vem do Santa Bárbara, parte da eletricidade do carvão queimado em Candiota, a descarga desemboca em uma usina de tratamento na zona do porto e depois no Sao Gonçalo. Nenhum lugar é uma bolha, um ambiente porta conexões.
Outro lugar que forma um apartamento é o prédio. Ele foi construído no início da década de 80, tem cerca de 40 anos. Não havia internet e o muro de Berlim ainda estava de pé. Pelas linhas e acabamentos não é difícil deduzir que foi feito por um engenheiro, tem uma informação de uma vizinha que foi uma das primeiras moradoras, diz ela que foi o único prédio que ele fez e depois foi criar gado. Seja lá como for uma das coisas que foi acertada e que mais gosto é o terraço. Uma área comum que as imobiliárias nem apresentaram-me. É uma área de uso comum, com boa vista. Eu costumava sentar aí para ler no verão, depois das 16 horas há sombra. Como nunca tive ar condicionado vez por outra em noites muito quentes eu montava uma pequena barrava iglu no terraço. Eventualmente levava almofadas e o tapete para receber amigos e/ou jantar. Acho que eu fui o morador que mais usou este terraço, os outros moradores no geral só o visitam para estender roupas. Se puder vá até o terraço. Fique de costas para a porta de acesso. Deixa eu te apresentá-lo. O quarteirão que você vê a frente é uma raridade. Ele está no centro de Pelotas e tem apenas um edifício. Todas as outras edificaçoes são casas, com grande parte com telhas de barro francesas, que ainda permitem os gatos a caminhar, sempre achei super fotogênico ver os gatos a caminhar nos telhados. Há uma pequena janela de uma casa da década de 50 que é circundada por uma hera, ao longo do ano aquele parede muda de cor. Fica verde, depois amarelo, vermelha e depois com galhos. Uma parede camaleão. Agora se desloque para seu lado esquerdo e encoste na chaminé do vizinho. Eu acho que esta é a chaminé de churrasqueira mais alta da cidade, tem 4 andares. É muita vontade de fazer churrasco. Há um cartão postal escondido ai. Deste ponto voce consegue enxergar uma parte da cúpula da catedral. Deste mesmo ponto a suas costas há no quintal do vizinho uma paineira, ela fica linda florida. Agora vá para direita. Na mesma parede da porta, conseguirá ver parte da arquibancada do Bento Freitas. Houve uma época em que era possível ver os guindastes do porto, mas com a explosão imobiliária a linha do horizonte está cada vez mais vertical e fragmentada. Entre no prédio, desça as escadas, quero falar dos vizinhos.
Há doze apartamentos no prédio. São habitados por idosos aposentados, estudantes e adultos jovens sem crianças. No primeiro piso no 201, é habitado pela moradora mais antiga, foi uma das primeiras moradoras do prédio. Ela gosta de novela, se enredava com o controle remoto da tv a cabo que a filha, que é advogada e não mora com ela, mandou instalar, por muitas vezes me pediu ajuda para acertar a tv. Hoje há uma cuidadora com ela, sofre de Alzheimer. Tenha paciência, terás de fazer isto muitas vezes. Ela se lembra de meu nome, mas acha que eu me mudei sempre há uma semana. “Te mudaste para cá?” – me perguntou inúmeras vezes, eu sempre dava a mesma resposta mas sentia um certo impulso de contar uma história diferente, nunca o fiz por respeito, mas dava margem para internamente responder de muitos modos e ser um exercício de criatividade. No 202 há um senhor advogado que mora sozinho, eu nunca nos falamos muito, infelizmente há um ano ele está com câncer de estômago, está mais suave, me passa a sensação que percebeu a finitude da vida, um dia não faz muito conversamos no corredor por cerca de 40 minutos, sobre sua doença e velhice, foi a conversa mais amigável e sincera que tive com ele em todos estes anos. Ele ja viajou muito, conhece Havana e Santiago do Chile, entre outros lugares, fiquei surpreso com isto, ao saber que tenho algo em comum que não só o prédio. O 203 é habitado pela senhora mais jovial do prédio, ela já morou em Sao Paulo e Porto Alegre, se perde no celular e já bateu na minha porta para ver o que aconteceu com o aparelho, ajude ela com o celular e terá uma costureira de mao cheia a um andar da sua porta. No 204 mora com a companheira um rapaz, professor de artes marciais, gosta de falar de lutas e agora também atua como coaching, a mae dele morou anos neste apartamento, quando ela faleceu ele veio para cá. Eles em um cachorro pequeno. No apartamento 301 mora um casal de estudantes. O garoto faz veterinária a menina não sei. Ele trabalha a entregar comida nos aplicativos e tem um gato preto que nunca sai do apartamento, não consigo entender como um veterinário tem um cato confinado que nunca sai, sobe em uma árvore sou faz coisas de gato, como as pessoas sentem, as pessoas sempre sentem de algum modo, ele não me comprimento nunca, ela diz oi. Estao a menos de um ano no prédio. No 302 mora um jovem de uns 28 anos, ele trabalha no shopping, gosta de ficar com garotos e estaciona o gol branco no corredor da garagem, pelo condomínio nao poderia, já que ele nao tem vaga própria, nao faço caso, ele é o tipo de cara que é gentil, nos surpreendeu ao trazer água quente e café no último final de semana no apt quando já tinhamos vendido o fogão, além disto em um emprego de shooping 200 reais de custo mensal a mais faz muita diferença. O 303 está vago há tempos, morava ali um programador de video game, que vivia viajando e fazia aula de banjo, morou ali por cerca de 1 ano. O 304 está vago há muito tempo, a última moradora foi uma garota que era professora de inglês, um dia bateu na nossa porta com uma nota de dez reais que tinha achado na escada a perguntar se era nossa, nao era, mas me impressionei com o gesto. Ela se mudou para o Rio de Janeiro faz mais de 2 anos. No 401 há uma moradora que é gerente de uma loja de roupas no centro. Ela tem uma vida muito simples, viaja para SP seguido para comprar roupas e perdeu o namorado não faz muito. Acho que ela trabalha muito, tem uma cara de cansada, ela se dá bem com os mais idosos do prédio e acho isto bonito. No 402, mora uma senhora de Santa Vitoria do Palmar, ela quase nunca esta em casa, tem o aparatmento para passar temporadas em Pelotas. No 403, mora uma aposentada da prefeitura. Foi a primeira a ter uma grade em frente a porta, ela realmente tem muito medo de assalto, se quer conseguir estima dela deixe claro que fechará a porta do prédio e a ajude a carregar compras escada acima, ela tem um problema na coluna que está a ficar pior com a idade. Não falo dos nomes das pessoas, te passo algumas informacoes para sentir vontade de as conhecer. Os vizinhos determinam da qualidade de vida de uma morada, de dois anos para cá, tenho valorizado mais isto. Sinto como uma movimento de resistência a atomização social crescente, base de muitas de nossas misérias e prato cheio para políticos oportunistas. Dividir para conquistar e dominar, funciona bem desde a época da colonização. Penso muito também em quanto os lugares afetam a vida dos idosos e como as cidades sao inóspitas para estas pessoas. Este prédio ficaria mais seguro para eles com sensores de iluminacao e corrimãos mais firmes. Penso que cadeiras no terraço para tomar sol seria ótimo para todos. Fica a sugestão.
Agora que já escrevi o apartamento e o prédio, quer falar da rua. Dr. Cassiano ( a sonoridade em espanhol fica cômica, soa para os argentinos como Dr. Quase Ânus, aliás o nome da cidade para eles já é motivo de riso). No fim da rua há um muro. É uma rua que termina em um muro em uma ponta e no Arroio Pepino em outra. Na extremidade do muro o pessoal desenha no asfalto, nas festas juninas, copa do mundo e as vezes em motivo, é bonito ver a rua como algo que se pode desenhar. No outra ponta agora há o ginásio municipal e um campo, um quarteirão todo que nao tem uma casa construída, acho que é da prefeitura, mas é uma área verde que tem boa luz a tarde. Na quadra e frente ao prédio ha uma casa rosa, é de um pastor da igreja Anglicana, e com um intervalo de apenas uma casa, uma morada de uma mae de santo que até a bem pouco fazia oferendas na esquina da Barroso. Nesta quadra também mora ao lado da barbearia uma descendente de japoneses, o pai dela era alemão, a avó veio do Japão. Ela tem primos em Tóquio. Tóquio está ali na esquina. Pastor anglicano e mãe de santa, alemães e japoneses, coisas do Brasil, coisas da nossa maior riqueza, a mistura.
Eu poderia escrever mais, mas quero deixar voce descobrir por si mesmo este lugar. Sou profundamente grato a estas paredes, a esta rua e cidade. Bem na esquina com a rua Santa Cruz, a cem metros a oeste do porta do prédio, há um ipê roxo. Creio pelo porte que é a árvore mais antiga de toda a rua, quando passar por ali, toque na casca desta árvore. Sinta nisto meu aperto de mãos, desejo de que este lugar lhe abrigue e fortaleça como fez a mim.
Cordialmente,

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Luminárias. Desdobramentos práticos de leituras sobre espaço, consumo, arquitetura e design.

 

 O quanto conseguimos manifestar algo que estudamos em movimento e forma? Como produzir objetos de forma mais amigável, sustentável e com maior autonomia? O quanto algo que sentimos como único é um fator de proteção para o descarte fácil? Assim surgiram estas (e outras luminárias), um exercício conceitual, com a ideia central de mostrar o quanto estamos a desperdiçar material nobres como madeira, ferro, cobre. A madeira é pinus, oriunda de paletes usados, os metais latas de conserva, coletados pelas ruas,  fios de eletrodomésticos descartados no lixo. Realizadas com cortes simples, uso mínimo de ferramentas elétricas e sendo estas de fabricação nacional, busca de uso mínimo de plástico e com tratamento de madeira com oléo de linhaça natural e plantada no Brasil, entre outros pequenos cuidados como a necessidade de apenas uma chave Philips para o total desmonte.   Como parte deste pensamento/ação foi escrito um pequeno folder, disponível em português/inglês/ espanhol  de apresentação com diretrizes de construção, apresentação de material  usado. Hoje há algumas destas luminárias produzidas com o dito lixo da cidade  em  Pelotas, Pedro Osório, Porto Alegre,  São Paulo, Budapest (Hungria) e Berlim (Alemanha).

Folder esplicativo escrito: manual definitivo word

415. Deveríamos estar preocupados com este número.

Pequenas crônicas com a temática ambiente e o tempo que vivemos. Um exercício de escrita que é uma tentativa de encontrar formas de comunicar algo grave sem levar ao desespero ou desalento.

  Um lugar ao sul do mundo onde a água ainda era limpa. Tocou o riacho e ao sentir a água gelada ficou a pensar. “Mais de 60% do nosso corpo é água, ficamos nove meses dentro da barriga de nossas mães mergulhados em água, nossos cérebros são protegidos dentro de nossos crânios por água, 70% da superfície da Terra é coberto por água. Todos os processos fisiológicos conhecidos sejam vegetais ou animais necessitam dela para acontecer. E somos tão arrogantes ,que acreditamos que nada irá acontecer se a poluirmos a torto e a direito que podemos lançar na água desde detergentes a lixo nuclear. Como podemos acreditar nisto? Como podemos ser tão insensatos?” – refletiu.Tirou a mão da água. Teve a sensação de que havia conversado com algo.

Entre outras crônicas.

 

texto em pdf: 415pdf

 

pelotas
Chão do atual Supermercado Paraíso, na avenida Barroso. Já houve uma flor onde hoje é o caixa número 4.

 

Estrangeiro, crônicas sobre identidade.

O que nos torna parte de um lugar? O que nos faz sentir pertencentes e locais? Quanto somos estrangeiros seja por fronteiras geográficas ou seja pelo contato com o não familiar? Em que o olhar deste lugar/identidade chamado estrangeiro nos ajuda a perceber o dito banal?  Esta coletânea de pequenas crônicas são situações que se deram em contato com esta identidade, seja em viagens, mas também como alguém que recebe pessoas de outros lugares.  Entramos em contato com o diverso para descobrir novos mundos e acabamos  por sentir com outros olhos o que nos rodeia todos os dias.

 

– Deixa eu ver se entendi: é um doce feito com uma fruta daqui, como é o nome?

– Da fruta goiaba do doce goiabada. 

 – ok. Um doce, de goiaba, junto com queijo, em um negócio que aqui é típico de decendentes de japoneses, servido com café ou suco de cana, suco de cana!  E tem nome de  Romeu e Julieta! Eu nunca conseguiria imaginar isto… Acho que até Schakespeare iria achar isto surpreendente…  Misturas do Brasil! – falou a sorrir, em uma pastelaria típica em que decendentes de japoneses serviam trabalhadores comuns, longe de cartões postais. 

Santos. SP 

 

Entre outras crônicas.

Arquivo em pdf: estrangeiro

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Pelotas, Brasil.

30 mesas. Um exercício de escrita e percepção do espaço construído.

O quanto um espaço permite a leitura? Em que um ambiente influencia a capacidade de escrita? Quais as autorizações  necessárias para utilizar um espaço público ou uma mesa de um estabelecimento comercial? Como definir o ambiente em que estou com uma única sentença? Qual a influencia do silencio na ambiência e conforto de um lugar e o quanto o barulho é invasivo? Quanto espaço o barulho ocupa? Questões que surgiram em 2016 em função de um despejo. Um prédio de 5 andares iniciou sua construção ao lado de minha residência. Era impossível permanecer em casa em função do barulho, do pó, etc. Surgiu assim este exercício de escrita, escrever por 30 dias consecutivos, em 30 lugares diferentes, em 30 mesas diferentes. São crônicas de leitura fácil, que buscam refletir sobre onde habitamos.

Supermercado. Entre corredores e itens da rotineira lista de compras ela  questionava significados de palavras nos rótulos e embalagens, nesta grande aventura que é aprender outra língua. Uma língua bonita e difícil, o português. Como uma criança os trazia até mim, perguntava algo e recolocava os produtos nas prateleiras. E tive de explicar porque “Espírito da manhã” estava na embalagem de um sabonete líquido, “Caipirinha” na de preservativos, “Nova fórmula” em um rótulo de “Iogurte Grego tradicional”, “Caseira” em um pote plástico de Maionese Hellman’s…

Desanimada lá pelas tantas falou:
-Muito difícil, português de mercado…
-É que se trata de outra linguagem. – falei, para tentar animá-la.

-Qual?
-Da insanidade!

E rimos. E fiquei a pensar, que andamos a consumir?

-31.752565,-52.335526 (Mesa free. Desaprendemos a usar o espaço público?).

 

Materia integral em pdf:

30 mesas copia 2

 

Vista da Janela, Pelotas, RS

 

Berlim, conversas no lado B

Em 2017 estive em Berlim. Como parte do aprendizado da língua local conversei com moradores de rua. Pagava 10 Euros por 30 minutos de conversa com tema livre. O mesmo valor referente a uma aula via internet. O anexo a seguir contem 5 pequenas crônicas e algumas fotos realizadas neste trabalho/contato/intervenção.

E me olhou assim, a me estudar, para avaliar o quão confiável eu era. E com os dentes amarelos de cigarro puxou a mochila encardida como sinal de sim. Pego o dinheiro. Ainda um pouco desconfiado ele o pega. E me vejo sentado no chão na Alexanderplatz com um pedinte de uns 30 anos… Confesso que é um pouco surreal. Marc foi o cara mais curioso a respeito do Brasil. Indaga sobre o clima. Sol o ano inteiro, inverno só no sul, no extremo frio, faz zero de madrugada, respondo. “Sol o ano inteiro até no inverno?” – pergunta incrédulo. Digo que sim. Sol, de verdade. Ele olha para o céu cinza e me pergunta com espanto talvez a pensar no sol: “E você vem passar férias aqui?!” .E me pergunta se há alemães no Brasil, se são ricos, se há trabalho… Se há moradores de rua no Brasil… E me lembro do índio patacho queimado enquanto dormia em uma parada de ônibus, mas sigo a política da boa propaganda, a mesma adotada pela Alemanha a não divulgar muito que 30% das crianças de Berlin estao abaixo da linha de pobreza dos padrões europeus, me limito a dizer apenas sim, temos moradores de rua, muitos. E lá pelas tantas pergunta se eu tenho um macaco. Não, eu não tenho um macaco. Muita gente no Brasil sequer viu um macaco de perto na vida. E conto que no Brasil as pessoas acham que na Alemanha todo mundo é rico. Ele sorri. Sinto que para ele aquela afirmação parece tao louca quanto foi para mim a pergunta que me fez sobre os macacos. Começa uma chuva fina. Esta frio. “Hoje eu posso tomar café preto” – fala ao se levantar. Nos despedimos. Penso na pergunta dos macacos. Penso na ideia de riqueza que fizemos da Europa… E algo me faz rir ao atravessa a praça em direção ao metro. Não sei bem do que, talvez da ingenuidade dos esteriótipos.

Anexo com texto integral:

berlim lado B

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Vígilia, uma intervenção urbana.

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  A presença demanda espacialidade, requer um lugar, um ambiente. E da relação entre a presença e um lugar surge a ambiência, isto é, interações que definem identidades. Onde estamos e o que fizemos no espaço que estamos definem identidades, sejam elas espaciais, individuais ou coletivas. Como um objeto altera nossa sensação sobre um lugar? Como a prenseca de alguém muda nosso estado de espírito? Como o lugar onde estamos define nosso comportamento de maneira quase reflexa? E como nossa presença afeta o espaço, objetos e pessoas onde estamos? O quanto de plasticidade há nas identidades formadas por estas interações? Estas são algumas destas questões que levaram a esta intervenção/performance urbana.

  Esta intervenção foi realizada na cidade de Pelotas, sul do Brasil, localizada na costa da Lagoa dos Patos. Pelotas está entre as maiores cidades do estado, com cerca de 340 mil habitantes1e como toda cidade tem de lidar com a questão do lixo. Atualmente o sistema de coleta de lixo é estruturado, desde 20092, da seguinte maneira, há containers verdes destinados ao lixo orgânico espalhados pela cidade e o lixo seco é coletado por uma caminhão de coleta com dias da semana definidos de acordo com o bairro. Há também pontos de coleta chamados Ecopontos, espaços cedidos pela prefeitura que contato com a participação das cooperativas de catadores de lixo, onde os moradores podem de forma voluntária levar seu lixo seco e também materiais de difícil descarte como móveis, pneus, eletrônicos, etc. O lixo seco é encaminhado para um centro de triagem para posterior venda revertida para as cooperativas de catadores e o lixo orgânico é encaminhado para a cidade de Candiota, a uma distancia de 150 km de Pelotas, onde há uma aterro sanitário3.  Transportar este lixo orgânico  demanda óleo diesel, manutenção de rodovias, recursos públicos, espaço físico, bloqueia o ciclo de nutrientes que poderiam ser incorporados ao solo, produz muito metano já que todo este lixo  é empacotado em sacolas plásticas o que aumenta a produção deste gás que tem um impacto alto nas mudanças climáticas, etc4. A situação é ainda mais dramática pois nestes coletoderes de lixo orgânico não há uma correta separação por parte dos usuários do serviço,  diariamente uma quantidade muito grande de alumínio, papel, plástico, ferro, vidro, e outro materiais são incorporados a esta matéria orgânica e são simplesmente soterrados no aterro. Há uma estimativa de que somente o muncípio de Pelotas perca cerca de 16 milhões de reais por ano com a não incorporação deste materiais no mercado5. O material é perdido, salvo aquela que os catadores por ventura coletam, atividade que no Brasil é desempenhada na total informalidade trabalhista pela parcela mais pobre da população6e que é responsável por 90 % do material reciclado no país. Estamos a gastar recursos públicos para enterrar e inviabilizar o uso de materiais que possuem valor no mercado, que poderiam gerar renda e empregos, materiais que para serem produzidos demandam um alto impacto ambiental como por exemplo áreas de floresta Amazônica para extração de Bauxita empregada para fazer alumínio7, ou extensas áreas de biomas como cerrado e pampa para cultivo de eucalipto8para produção de papel. Desperdiçar materiais com este custo ambiental de produção, os quais poderiam ser reciclados é algo extremamente insensato e irresponsável.

  Com estas informações como pano de fundo e reflexões de outros trabalhos e contatos anteriores com o tema resíduo/lixo a intervenção Vigília foi uma açao em que o proponente pelo período das 8 as 18 horas de dia normal ficou na presença de um container de lixo. E ao entender que presenca diz respeito a alteração/mudanca de amibiencia e identidades foi realizado neste período a total separação de todo o lixo depositado neste container, isto é, foi separado todo o lixo orgânico do seco. O container não foi escolhido ao acaso ele foi selecionado pois fica a menos de 100 metros do Ecoponto9, ou seja, a menos de 100 metros de ser destinado a uma cooperativa de catadores e ser reincorporado a cadeia produtiva. Foi para este Ecoponto que todo o lixo em condições de ser reciclado foi encaminhado. Ressalta-se também que este container recebe, por sua localização, lixo da classe média/ média -alta, pessoas que provavelmente tem boa grau de educação formal e acesso a informação, descaso este preocupante e abre muitos questionamentos principalmente a considerar a urgência da temática ambiental. Estamos em uma crise ambiental sem precedentes1011deveríamos estar a discutir questões mais avançadas como o impacto da digitalização no aumento do consumo de energia, explosão populacional, responsabilidade intergeracional, etc mas sequer conseguimos separa nosso lixo.

  A intervenção foi algo simples. Separar o lixo, resgatar material, estar presente por mais do que usuais e poucos segundos que se leva para depositar o lixo pessoal dentro do container. Ao total foram separados/resgatados ao longo do dia cerca de 40 quilos de material reciclável como papel, latas de aluminio, vidros, garrafas pet, caixas de leite, etc e encaminhados ao Ecoponto, local onde este lixo seco é encaminhado para reciclagem e gera renda para cooperativas de catadores da cidade. A intenção central desta ação foi chamar atenção para responsabilidades coletivas e como estamos usar nosso tempo energia, e entenda energia tanto quanto física/corporal como aquela demanda na produção de materiais e de seu descarte.  Talvez o papel primordial da arte, chamar atenção, sentir. Perceber como a presença e atos simples moldam realidades possíveis horizontes de futuro.

Pelotas, outubro de 2019.

9Coordenadas : -31.754456, -52.330982